quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A casa das caixinhas de música.

Na casa das caixinhas de música não se ouve música. Não se ouve nada. Suas ilustres moradoras, bisa Lila e Tia Tica, possuem há certo tempo um adereço a mais nas orelhas além dos brincos: aparelhos auditivos. Então talvez eu esteja exagerando quando digo nada, se ouve muito pouco. Tio Durval, a quem quase não conheci, marido da Tia Tica, sempre foi colecionador de coisas, e deixou de herança uma porção de caixinhas de música, espalhadas por todos os cantos. Tem moinho, piano, carrossel, carruagem, guarda-roupa, bailarina, é só dar corda que a casa toda canta.

Já deve ter mais de 100 anos a pequena morada do bairro do Ipiranga. As janelas de madeira enormes, originalmente pintadas de branco, já tiveram o seu charme, a pintura das paredes agora gasta e escura pela foligem e poluição da cidade de São Paulo, acompanhadas de grandes rachaduras que vão do teto até o chão, uma escadinha pequena que leva a um pequeno alpendre, com algumas plantas, são imagens que me trazem vagas recordações da minha infância, e trazem lembranças de uma vida inteira para vovó Cleusa, minha companheira de viagem.

No caminho do aeroporto até a casa eu ouvi histórias da adolescência da vovó. Conheci o colégio em que ela estudara, a outra casa onde morara, onde aprendeu a tocar piano, onde a prima morava, onde a amiga fulana de tal fizera mil e tantas coisas. Histórias regadas a suspiros e saudade do lugar onde ela nasceu e cresceu. Acho gostoso de escutar e imaginar uma época diferente da minha, onde tudo era tão ingênuo e romântico. Época de andar de bondinho, homens galantes de chapéu e mulheres bem penteadas. Parece que tudo era tão bonito nas fotos.

Por falar em foto, conheci o meu bisavô Aristídes por uma fotografia. Não falam muito sobre ele, morreu muito jovem, quando a minha avó ainda era criança. Por todos os cômodos da casa existem lindos quadros e desenhos feitos por ele. O meu preferido é o que fica na sala, com dois cachorros garbosos, gosto de ficar observando a pelagem deles, as cores, os traços.

A casa além de cantar, range. Por ser toda de madeira por dentro, além do barulho que faz andar sobre os tacos velhos, tudo parece ter vida própria, os móveis antigos demais, as porcelanas, até as fotografias desde as mais antigas até as mais recentes. Eu tenho um fascínio especial pela escada escura em caracol no meio do hall de entrada que leva para os quartos, a clarabóia de vitral a cima dela dá um toque especial. Quando eu era criança eu tinha medo dela, mas ao mesmo tempo gostava de subir correndo e depois descer, só para me sentir a mais corajosa.

Mais coragem é preciso para ser a última a dormir na casa. Uma casa que range de dia é uma coisa, mas a noite, qualquer filme de terror não é nada. Por duas vezes já tive impressões de ter pessoas em lugares onde não deveria ter ninguém, fiquei despreocupada até a minha avó ter a mesma impressão. Depois disso passei a dormir mais cedo, enquanto todo mundo vai dormir. Não é que seja medo dessas coisas, imagina, mas é que eu não pretendo atrapalhar a atividade de qualquer fantasma que queira vagar por aí, melhor que eles assombrem enquanto eu estiver dormindo né?

Durante o dia, as horas passam devagar, não tem muito o que fazer. Meus assuntos de crochê, tricô e novelas nunca estiveram tão em dia, em meio a muita gritaria para se fazerem ouvir, vó Lila, tia Tica e vó Cleusa idolatram o Silvio Santos e comentam o noticiário “que só noticiam coisa ruim”, depois de darem o relatório de tudo que elas fizeram durante o dia, às vezes eu escuto mais de uma vez, que “o César comprou leite”, que “eu como muito pouco”, que “tem fruta na geladeira”, que elas comem sopa todo dia porque “a vó gosta”, que “tá chovendo”, com variações para “olha como chove!”.

Desde que eu cheguei o passatempo preferido delas é me entupir de comida e me encher de perguntas. Elas ficam espantadas que eu não tenha um marido na minha idade, e nem se quer um namorado, e eu que pensava e já estava até preparada achando que elas iam querer saber porque eu estou desempregada e quais são os meus planos para o futuro, nada disso...Além do mais aqui é o único lugar do mundo que brigam comigo quando eu quero lavar a louça, e como vocês devem imaginar a vontade nem era tanta assim.

Eu não conheço nada por aqui e toda vez que saio para explorar os arredores eu me perco. O museu do Ipiranga eu já sei de cor, mas eu sempre gosto de visitar, quero ver ainda o museu de zoologia que é aqui perto também. Hoje sai para fazer compras com a minha avó e fiquei impressionada como roupas e sapatos na Silva Bueno são artigos baratos e como comida é caríssimo. Amanhã iremos no mercado municipal do Ipiranga e será o dia de beleza da vó Lila e da tia Tica. Eu e a vovó vamos pintar e cortar os cabelos delas. Se elas deixarem faço até maquiagem, as convenci que era para tirar uma foto bonita para mandar para minha mãe mostrar para o pessoal de Goiás.

Acho que é a última vez que venho a essa casa. Ela está à venda, assim como as duas casas do lado. E quando eu voltar para Anápolis a bisa Lila vem morar com a gente. A Rua está em obras, o metrô agora vai passar por aqui, e provavelmente quem comprar as casas fará prédios ou pontos de comércio. As caixinhas de música? Cada um que vem aqui fazer uma visita leva uma de presente, embora elas não recebam muitas visitas. Muitas delas devem ir lá para casa...lá tem espaço e muita gente para escutar também.

6 comentários:

  1. Nossa, confesso que quase chorei com as descrições.Me deu bastante saudade da casa da vó, e só de pensar que ela está à venda e que nao mais verei a escada de madeira, fico cheio de saudades.
    Aqui em casa sem você está quase igual aí,silenciosa.Não que eu ache ruim,Rs, mas tá estranho.Vejo nos olhos da mamãe a falta que você faz.
    Aproveita o passeio,e conhece a Estação da Luz por mim.Hehe

    "Gostei do texto, manda mais."

    Biel

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  2. A mim deu vontade de conhecer a casa (e as ocupantes). Parece ser uma daquelas casas em que cada telha, cada taco, cada casquinha de tinta tem uma história.

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  3. que lindo, joyce!
    memória sempre me deixa com vontade de chorar.

    aqui...vc fica aqui qto tempo? eu vou muito ao ipiranga, a casa de cultura dos meus pais é lá... eu moro no jardins (por enquanto, depois vou me mudar), mas de metro é bem pertinho! me ligaaaaa!

    beijo!


    (posso conhecer a casa da sua avó?)

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  4. Ai... eu escrevi sobre SP eses dias tb e era mais ou menos esse feeling.. a casa da minha tia aí (lá) não está a venda, eles ainda resitem, mas a mudança na paisagem é foda... boa estadia, não esquece do meu piercing preto e do banner do meu blógui eheheh

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  5. casa de vó, história do tempo delas,esse ritmo de vida que parece antigo e caixinhas de música: tudo isso me deu um aperto nostálgico no coração molenga!

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  6. Joyce, já falei antes até para sua mãe e retorno agora.
    Escreva um livro infantil, ou infanto-juvenil. Suas estórias merecem.
    Quem sabe não está aí seu futuro!!!
    Beijos
    Celso e Margareth

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