domingo, 24 de janeiro de 2010

O pequeno príncipe do cerrado



 "Desenha-me um peixe"

Acabo de voltar da fazenda São Bento, em Alto Paraíso de Goiás, lugar que eu adoro. Acompanhei o vovô na viagem que ele fez a trabalho, fui tentar levar tranquilidade para a tia que não sabe onde colocar tanta preocupação com os problemas, colocar o irmão em enrascada, ver ganso carente de amor pela galinha pensar que é gato e roçar nas pernas da gente pedindo carinho (oi?) e tomar meu primeiro banho de cachoeira do ano para dar uma carregada nas energias, ou eu diria melhor, para dar uma assustada na alma com aquela água gelada.

Nesses três dias de isolamento no meio do mato, tentando encontrar paz, principalmente a interior, eu tive ao invés disso o caos. Voltei esgotada e completamente apaixonada. Só agora eu me dou conta disso, estou apaixonada! E começou como todo grande amor, primeiro se confunde com ódio e quando se dá conta o sentimento está ali, borbulhante e terno. E a saudade já me deixa desestruturada.

Carlos José, esse é o nome dele. Com toda a fofura e hiperatividade do alto de seus 4 anos de idade, esse meu priminho usou de alguns golpes baixos para me conquistar. Me chamando de "lindinha" quando queria alguma coisa, brincando de pescar a sereia enquanto simulava me fisgar, e fingindo dormir no trajeto da cidade para a fazenda só pra eu carregá-lo no colo, do carro até a cama.

Sempre atrás de mim com um caderno de desenho e um porção de canetinhas ele me pedia para desenhar peixes de todas as cores e todas as espécies. Como o meu conhecimento sobre peixes não é lá muito vasto, depois do peixe espada, peixe bola e peixe palhaço não conhecia mais nenhum, então até "peixe vaca" surgiu na terra para preencher o aquário de papel. Ele descobriu que eu era um fracasso na pescaria, quando não soube desenhar um pirarucu, ou só sentiu-se incomodado com as gargalhadas que eu deixei escapar ao ouví-lo dizer "piranucu", então ele mudou sua obsessão para trens e eu me vi desenhando cargueiros e estradas de ferro a toda hora.

É claro que eu tive vontade de matá-lo algumas horas (ó a confusão com o ódio aí), quando ele me obrigava a correr atrás dele sob ameaça de "fugir pra rua e virar bandido" (era o que ele dizia sempre que era contrariado), quando me fazia lavá-lo com mangueira em quintal alheio, depois de ter rolado na lama brincando de polícia e resgantando um chinelo, ou quando entrava no meu quarto gritando, querendo brincar e eu já embaixo do cobertor quase dormindo. Nem esses pequenos inconvenientes me fizeram menos encantada.

Como não o vejo sempre, talvez o encanto acabe daqui a uns anos quando ele se tornar  um adolescente rebelde sem causa  e me achar uma adulta chata e sem muita paciência. Quando os peixes inexistentes e trens de cargas com estrada de ferro em montanhas sinuosas forem esquecidos...




4 comentários:

  1. Véi, um pirarucu é tipo um bagre - peixe de bigodes - só que sem bigodes e com a boca de buldogue. Simplesmente lindo. ehehee

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  2. gostei do nome "piranucu" parece que é fanho! hausiahsiahsa
    óun, esses babys sao umas coisas meeesmo! adoro! :D

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  3. ah, como esta lindo o seu blog :D

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