domingo, 5 de setembro de 2010

Meu interior não é tão bonito assim.


Tenho dentro de mim uma intrusa que me atormenta. Antes fosse minha consciência, mas não podia ser tão bom assim pra ser verdade. É a danada da H. Pylori, uma bactéria muito empenhada em me fazer sofrer. Ela me deu de presente uma gastrite, e como consequência uma dieta forçada que me fez abdicar das coisas que eu mais gosto de beber e comer. E o que é uma vida sem sacrifícios não é mesmo? É o que eu venho repetindo para mim mesma como um mantra.

Tive que visitar médico e eu tenho pavor. Na top lista das coisas do medo está par a par com rato, extraterrestre e luta de espada. Não gosto mesmo, fico nervosa, os sintomas se intensificam , e ainda tem os exames, que no meu dicionário significam picadas de agulha, seguidos de desmaios ou não, tudo vai depender da quantidade de sangue em demonstração. Nessa minha última visita ao médico, eu quase me senti feliz quando ele limitou os procedimentos a gel frio no abdômen e enfiar uma câmera guela abaixo para análise da minha beleza interior.

Sim, eu fiz ultrassonografia abdominal e a temida endoscopia ( e é essa a parte que eu não me sinto feliz...). Como se eu não estivesse apavorada o suficiente no período pré-exames, colhi alguns depoimentos interessantes de conhecidos: "É ruim demais! Se você fizer náusea na endoscopia vai sentir muita dor", " Me deram um sedativo e eu cantei a enfermeira!", "Eu xinguei a enfermeira!", "Achei que era pedra na vesícula e era bebê!". Nada como ser tranquilizada por aqueles que te querem bem.

No dia anterior aos exames, fiz minha última refeição como quem vai para a forca, comi meu prato predileto pouco me importando se me faria mal ou não, pedi a extrema unção e já pensava qual seriam as minhas últimas palavras. Chega  o grande dia e aquela sensação de que é a última vez que se vê a luz do sol aumentando, um filme da minha vida passa diante dos meus olhos. Pausa dramática para ressaltar que todo meu sofrimento era intenso e levei minha mãe para me acompanhar, porque, quem se não a mãe da gente para nos acalentar nessas horas tão difíceis? 

Enquanto esperava na salinha, eu via todas aquelas pessoas que também fariam a endoscopia. Para o meu desespero elas entravam e não saiam. A enfermeira abre a portinha e chama um por um com uma voz entediada e entediante que estava me deixando mais nervosa. "Joyce de Abreu Pfrimer". Sou eu!  Dei um pulo da cadeira, assustada o suficiente para esquecer bolsa e mãe para trás. Primeiro era a ultrassom, e foi até boa a sensação do gel frio na barriga, melhor ainda a sensação quando o médico disse que estava tudo normal e que não havia nada de errado com minha vesícula, rins, bexiga, útero e ovários. 

Em um lapso de inocência, pensei aliviada que não precisaria de endoscopia. Eis que o médico destrói o meu mundo e diz que não dava para ver meu estômago. Tensa de novo! Mais espera, mais pessoas que entram e não saem, e enfim chegou a minha vez. Entrei em uma sala bem branquinha e asseada como nunca vi, cumprimentei as enfermeiras, mas fiz questão de não olhar muito bem para o rosto delas, uma espécie de respeito ou medo das carrascas. Me fizeram deitar de lado e uma delas amarrou o meu braço e veio pra cima de mim com uma injeção imensa, a maior injeção que todo o meu medo infantil de médico conseguiu fantasiar e ela me disse que eu sentiria uma leve tontura. 

Apagão.

Foi tão frustrante, porque eu não consigo me lembrar de nada. Só acordei às 15:30 da tarde arrastando a língua para falar de tão zonza. Não sei se doeu, não sei se eu xinguei a enfermeira, eu não vi o médico, não lembro como fui para o carro, nem como cheguei em casa. Não sei se com todo mundo que faz esse exame é assim, mas essa sensação de abdução é esquisita. Fazem experimentos com você, tiram pedaços do seu estômago para biópsia e você não se lembra de nada. Depois disso contato de 4º grau é fichinha.

O resultado deu gastrite crônica e eu tive que esperar 2 semanas, por não haver horário no consultório e depois mais duas horas em uma sala de espera, sem almoçar, assistindo à propaganda eleitoral, e aprendendo nas revistas como "perder 5kg em um mês" (coisa que me pareceu óbvia seguindo a receita da  matéria que proibia qualquer alimento, pelo menos os que fossem gostosos) e "como enlouquecer meu gato na cama". São nesses momentos que você descobre o quão ignorante é. Me pareceu bem absurdo viver sem aquelas informações todo esse tempo.

Enfim depois de tanta espera e drama pessoal, o médico queria bater o record e leu meu exame, me passou uma receita de remédio, me deu um panfleto informativo para evitar a fadiga de ter que me explicar sobre a doença, restringiu a minha alimentação e disse que se minha dor não passasse não queria me ver nunca mais, tudo isso em inacreditáveis 3 minutos e 49 segundos. Achei muito simpático da parte dele, por toda a atenção que ele não me deu. Eu bem que tentei ficar calma, mas minha gastrite saiu ainda mais nervosa.







3 comentários:

  1. Ai, que ruim, Joyce! :~~~~~~~~~~

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  2. Mas cê fez tudo parecer tão Bridget Jones, que, ó, não soubesse eu do seu sofrimento, tinha dado muita risada.

    Mas vai melhorar. Cê sabe que vai, né?
    ;)

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  3. Calma, querida... A gente nunca escapa dessas coisinhas. Vai passar logo... Eu tenho alguma coisa que eu nao sei o que é, desde criança. Já fiz vários exames... E nunca acham a raiz da coisa. Mas enfim, tenho que conviver com apagões instantaneos... Os desmaios agora sumiram... E a pressão oscila sempre. Mas estamos aí né? Vivonas!
    Vai ficar tudo bem, viu?
    Beijinhos!

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